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Terra Blog

30.09.07

SOBRE EMOÇÃO E PATERNIDADE

Acorda que seu filho está nascendo, ela me disse com a tranquilidade de quem avisava da hora de ir trabalhar. Para não fugir à regra, eu imediatamente me vesti de pai neurótico e passei a correr pelo quarto sem saber muito bem o que fazer. Se pegava a mala de roupa preparada havia um mês, se me lançava sobre a certeira para ver se a grana dava para um táxi até o hospital ou se tratava de tirar aquele pijama horrível ganhara no último dia dos namorados e que me sentia na obrigação de usar para não contrariar uma grávida.

Verdade é que, por mais que me sentisse preparado para a chegada daquele momento, o descontrole tomou conta de mim, pois, afinal, foi ali que caiu a ficha de que o meu filho chegaria a esse mundo. E eram muitos os sentimentos juntos num mesmo momento. Era o orgulho de me tornar pai, a incerteza de saber se saberia criar o pequeno, a indefinição sobre sexo, vez que decidimos não procurar saber com antecedência.

E vieram outros sentimentos mais profundos também naquele balaio momentâneo de emoções. Como vai estar o mundo para receber o meu filho, afinal? Como estará esta criança daqui a alguns anos se hoje, no momento em que ela chega, tudo parece tão confuso e a anunciar um futuro não lá muito promissor? É verdade! Até nisso eu pensei naquele momento em que tomara consciência de que meu filho dava os primeiros sinais de vida fora do aconchego do útero materno.

Mas tão instantâneos quanto chegaram, os pensamentos também se dissiparam. Ainda que sem perceber, liguei no automático e tratei de correr ao hospital não sem antes telefonar para o médico avisando do momento. Tudo muito rápido e poucas horas depois, repetindo a cena que só vira até então em novelas, estava eu no ir e vir do corredor a esperar a grande notícia. E ela veio. E era ele. Embrulhado num lençol como que perdido lá no fundo nas mãos de uma enfermeira.

Era meu filho que acabara de nascer e seguia já para o berçário. Não tem muito como explicar o que se sente e eu só soube soltar uma palavra ao ouvir da enfermeira ser aquela coisinha o bebê que por nove meses esperamos com tamanha ansiedade. “Caralho!” ecoou nos corredores e não houve sequer um sinal de repreensão à explosão de alegria que me fora capaz naquele momento. Era como se todos ali entendessem o que afinal se passava comigo.

Vinte e três anos se passaram desde aquela manhã de outubro. O bebê de então agora é um cara. Um grande cara. E me diz que vai se casar e, ao que tudo indica, caminhar para, em breve, experimentar os sentimentos que tive quando de sua chegada a esse mundo e os quais jamais consegui dizer a ele como eram.

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