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Será que o meu país é tão desgraçadamente passivo assim que deixa as barbaridades acontecerem sem que nenhuma reação manifeste? Será que vamos ter que engolir muitos sapos até que tomemos uma atitude para mudar o estado de coisas que nos é esfregado na cara dia a dia sem dó nem piedade?
Quem de nós disser que se surpreendeu ontem com a absolvição do mal caráter alagoano na casa de mãe Joana que chamam senado federal está sendo mais hipócrita do que o maldito sujeito em questão. Nós todos sabíamos que o desenho da farsa estava sendo riscado desde as primeiras denúncias sobre recebimento de propina, dinheiro para vacas e pensões enviesadas.
Ora, de certa forma, cada um de nós povinho de merda sabe que quem está lá abre o bolso ao chegar para que caiam as gordas moedas dos corruptores de plantão. Sabemos que lobista é um nome elegante que se encontrou nesse país enxovalhado para a prática escancarada da corrupção ativa.
Inocentar Renan Calheiros é de uma provocação insana que, acaso acontecesse n’algum país com um pouco de vergonha na cara, faria estourar um levante sem precedentes. E o pior é que sabíamos mesmo dessa absolvição. Ela era dada como certa embora, como parte do espetáculo circense, veículos de comunicação travestidos repentinamente de fiéis defensores da moral não se cansassem de dar como favas contadas a condenação. Mentira.
Acostumamo-nos a ouvir que fazemos parte de um povo pacífico e festeiro e nos vangloriamos disso sem nos dar conta de que esta é tão simplesmente uma fala lapidada como chibata para conter a boiada. Lembro da piada em que deus é questionado sobre o porquê de dar ao Brasil paisagens tão lindas, ao que ele responde que, em contrapartida, se veria o povo que iria botar por aqui. E como é real isso.
O que vemos naquela Casa de Noca do planalto central hoje é a síntese do que somos. Tive que engolir, com certa náusea, uma semelhança da cara de calhorda do senador julgado ontem com a minha imagem no espelho do carro ao ouvir o veredicto anunciado no rádio.
A vontade de pegar em armas como outrora se fez e se faz ainda hoje noutros cantos foi grande naquele momento. Abominei o discurso cristão do povo pacífico e tive desejo de jogar o carro contra o primeiro símbolo nacional que cortasse o meu caminho, e não o fiz para, de repente, recolher-me à insignificância a que eu, como todos os demais compatriotas, estou relegado desde que, amedrontado pela reedição dos chamados tempos de chumbo, parei de agir.
Encostei o carro por uns minutos, respirei como que para engolir o sapo e, à minha mente veio apenas o questionamento sobre que democracia afinal é esta que nós conquistamos e que nos vai enlameando a existência e a história.
Façamos a revolução, seja ela qual e como for!
criado por Vanderlei Carvalho
23:29:33