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Peço mil perdões por tantos dias parado e não vou mentir para vocês. Enfrento uma daquelas crises absurdas que nos fazem parar de repente. Nem dá tempo de pedir um tempo.
Sinto-me um pouco devedor daqueles que se acostumarm a me encontra aqui a cada dia e estou ainda mais puto com isso porque já é esta a terceira narrativa de pedidos de desculpa que lanço aqui por conta destas falhas.
Nos últimos dias tenho questionado um sem número de coisas em minha vida. O trabalho, as pessoas, a família, os amigos, os animais, as plantas do jardim de minha casa, os jornalistas com os quais tenho que me relacionar, os funcionários que insistem em dissimular e não trabalhar, a comida de nieta, o afeto do ítalo...ou seja, crise mesmo.
Daí, parei. E nem sei como é que vou voltar, mas como sei que sempre volto, espero ter recuperado um pouco do senso de humor quando isto acontecer, porque isso aqui me faz uma falta imensa.
Um beijo pra você me aguarde, por favor.
"Não, não me abandone, não me desespere! Porque eu não posso ficar sem você."

criado por Vanderlei Carvalho
17:31:19
criado por Vanderlei Carvalho
17:31:17Sexta-feira na Bahia é dia de comer caruru, vatapá, xinxin de galinha e todas essas comidas regadas a bastante dendê, certo? Errado. Sexta-feira é dia de feijoada. Mas feijoada, como eu mesmo disse aqui dia desses, não é o prato que a mãe baiana prepara no domingão? Que porra é essa?, perguntaria indignado o mais baiano dos meus amigos.
E eu explico. Sexta-feira aqui nas imediações do prédio em que trabalho é sim dia de feijoada e tudo por conta de um santo dono de restaurante desses de comida rápida que, com sua beleza quase angelical se transformou numa verdadeira atração do lugar. Para eles e para elas.
O cara é bonito fé verdade e não é aquela beleza que faz você ficar pensando em relar com ele nos lençóis macios, embora não seja esta uma idéia de todo ruim. Mas, muito mais do que isso, ele é dono de uma beleza boa de a gente contemplar. O tipo de cidadão que justifica por completo o que dizia Ulisses, amiga de longas datas: “O cafajeste que minha mãe pediu pra genro”. Tudo bem, retiremos o cafajeste porque disso o rapaz não tem nada. Mas que é esculpido para entrar na lista de disputa de sogras aos montes, não resta dúvida.
Mas o sujeito tem algo mais do que a beleza simplesmente. Ele é educado, faz questão de ir a cada uma das mesas de seu estabelecimento saber se está tudo bem, usa camisa pólo em cores que variam de um dia para o outro, ostenta uma belíssima tatuagem no bíceps avantajado sem ser bombado e tem sempre um sorriso angelical para receber sua clientela, seja deles ou delas.
Resultado: o restaurante que, até ser comprado por ele, vivia às moscas, se mantém permanentemente lotado e tenho certeza de que, por mais saborosa que seja a comida que serve, não é exatamente este o motivo central de tamanho sucesso.
A turma dos prédios vizinhos desce em cascata no horário de almoço e é hilário ver os olhares lânguidos das mocinhas ao serem abordadas pelo galã. Igualmente hilário é assistir aos caras que também ali estão por conta da bela novidade mas que, por razões óbvias, não se permitem externar o pensamento. A estes restam os cutucões e olhares atravessados entre si.
Enfim, para uma sexta-feira que anuncia a chegada do fim de semana, um almoço melhor que este tá meio difícil. E antes que acabem com a feijoada, vou descer pra cumprir meu ritual. Bom apetite!

criado por Vanderlei Carvalho
12:54:35Será que o meu país é tão desgraçadamente passivo assim que deixa as barbaridades acontecerem sem que nenhuma reação manifeste? Será que vamos ter que engolir muitos sapos até que tomemos uma atitude para mudar o estado de coisas que nos é esfregado na cara dia a dia sem dó nem piedade?
Quem de nós disser que se surpreendeu ontem com a absolvição do mal caráter alagoano na casa de mãe Joana que chamam senado federal está sendo mais hipócrita do que o maldito sujeito em questão. Nós todos sabíamos que o desenho da farsa estava sendo riscado desde as primeiras denúncias sobre recebimento de propina, dinheiro para vacas e pensões enviesadas.
Ora, de certa forma, cada um de nós povinho de merda sabe que quem está lá abre o bolso ao chegar para que caiam as gordas moedas dos corruptores de plantão. Sabemos que lobista é um nome elegante que se encontrou nesse país enxovalhado para a prática escancarada da corrupção ativa.
Inocentar Renan Calheiros é de uma provocação insana que, acaso acontecesse n’algum país com um pouco de vergonha na cara, faria estourar um levante sem precedentes. E o pior é que sabíamos mesmo dessa absolvição. Ela era dada como certa embora, como parte do espetáculo circense, veículos de comunicação travestidos repentinamente de fiéis defensores da moral não se cansassem de dar como favas contadas a condenação. Mentira.
Acostumamo-nos a ouvir que fazemos parte de um povo pacífico e festeiro e nos vangloriamos disso sem nos dar conta de que esta é tão simplesmente uma fala lapidada como chibata para conter a boiada. Lembro da piada em que deus é questionado sobre o porquê de dar ao Brasil paisagens tão lindas, ao que ele responde que, em contrapartida, se veria o povo que iria botar por aqui. E como é real isso.
O que vemos naquela Casa de Noca do planalto central hoje é a síntese do que somos. Tive que engolir, com certa náusea, uma semelhança da cara de calhorda do senador julgado ontem com a minha imagem no espelho do carro ao ouvir o veredicto anunciado no rádio.
A vontade de pegar em armas como outrora se fez e se faz ainda hoje noutros cantos foi grande naquele momento. Abominei o discurso cristão do povo pacífico e tive desejo de jogar o carro contra o primeiro símbolo nacional que cortasse o meu caminho, e não o fiz para, de repente, recolher-me à insignificância a que eu, como todos os demais compatriotas, estou relegado desde que, amedrontado pela reedição dos chamados tempos de chumbo, parei de agir.
Encostei o carro por uns minutos, respirei como que para engolir o sapo e, à minha mente veio apenas o questionamento sobre que democracia afinal é esta que nós conquistamos e que nos vai enlameando a existência e a história.
Façamos a revolução, seja ela qual e como for!

criado por Vanderlei Carvalho
23:29:33Mulheres são todas iguais. Não foram poucas as vezes que ouvi esse tipo de comentário e, nem muito menos, poucas as que o fiz. Sempre, claro, numa alusão ao que se considera - ou consideramos - traços de personalidade do sexo oposto ao lidar com determinadas situações, na maioria das vezes, ligadas ao relacionamento afetivo ou aos impulsos consumistas.
Mas o mesmo comentário que ouvi de uma amiga ontem deixou-me a pensar mais profundamente na questão. Assistíamos a um desfile de moda e, de repente, ela soltou essa: “As mulheres são todas iguais”. Eu olhei assustado e, antes que eu questionasse o dito, ela apontou para a fila de modelos que entrava na passarela: “ Olha só para você ver. Todas iguaizinhas. Não tem mais aquela coisa de uma ter um quê a mais que a outra”.
E eu comecei a olhar mais atentamente e medir aquelas magricelas que se revezavam no tablado como que a se apresentar somente para minha avaliação.
E entrei na onda mesmo. Passei a avaliar, olhando uma a uma e, aos poucos, comecei a sentir que estava vendo uma única mulher. E era mesmo isso. As pernas imensamente finas que me fizeram lembrar os versos de uma canção caipira: “parece dois palitos enfiados num sabugo”; os olhos que me remeteram ao que minha amiga Flávia chamou um dia de olhar de paisagem; os corpos que precisariam receber uma calibragem reforçada para alcançar o status de esguios. Enfim, todas desgraçadamente iguais e tremendamente feias. Você pode até me dizer que tudo isso é por conta da atividade profissional, mas eu fico a pensar que droga de profissão é essa que aniquila com o que de melhor uma mulher tem para elevá-la ao topo.
Lembrei de um tempo em que as passarelas eram povoadas de lindas mulheres que entraram para a história. Passei a conversar com minha amiga sobre tempos não muito distantes em que um trio de beldades povoava o imaginário nacional e até mundial. Luiza Brunet, Monique Evans. Senti saudade da Luma de Oliveira que chegou a merecer versos de um poema que fiz e nunca consegui lhe entregar, mas que até hoje goza da minha mais alta admiração e me faz correr para revistas sempre que vejo uma foto sua.
Quando a gente – eu e minha amiga – percebeu que estava aprofundando o assunto e buscando mulheres que o vento levou, ela, sabiamente, saiu-se com essa: “Ah! Deixa essas mulheres pra lá. O que me interessa mesmo é a roupa”. Ou seja, em tempos de indústria a mil por hora, esse negócio de ser bonita virou mesmo um mero detalhe. E continuamos as ver o desfile, este sim, bem bonito.

criado por Vanderlei Carvalho
00:18:12