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Existe invenção pior do que carro? E não me venha com a lorota de que o trambolho é necessário porque nos possibilita a locomoção facilitando a nossa vida e coisa e tal. Facilita o escambau, porque, de tempos em tempo, a gente entra na rota da dificuldade geral exatamente por conta dessa máquina que faz até neguinho acreditar na máxima de que carro é mais uma família.
Os que comungam desse tipo de besteira certamente consideram a família como peso morto. Não gosto de carro e acabou. Ao contrário de meus irmãos que são aficionados pela engenhoca, especialmente o Edilson que não abre mão de uma quase coleção que ostenta e trata como verdadeiros filhos.
Desde pequeno, aliás, ele demonstrava paixão pelo bicho de quatro rodas. Tinha talvez menos de 10 anos quando conseguiu salvar o jeep de cair numa ribanceira lançando-se para dentro dele e controlando freio e direção. Adolescente, uniu-se a um amigo filho do mecânico da cidade e construiu algo similar à Camicleta da dupla Xazan e Xerife. E só não badalou mais com o veículo porque nosso pai, ciente de que boa coisa não ia dar, assumiu sua porção guarda Belo e interceptou o desfile.
Já eu nunca fui adepto da coisa e tenho lá meus motivos para isso. Quando criança, sei lá porque, jamais pedi um carrinho sequer ao papai Noel que visitava nossa casa religiosamente nos natais. Tenho uma única lembrança de interesse por carro e talvez esteja atrelada a ela a minha rejeição.
A família fazia o passeio anual insuportável pelas ruas estreitas de Aparecida, onde fica a Basílica Nacional, e nossa diversão era olhar as lojas que já àquela época amontoavam-se umas sobre as outras. Em meio a tanta bugiganga em oferta, chamou-me a atenção a réplica em madeira de um modelo Kombi da Volkswagen. De cara me apaixonei por aquilo e passei a pedir insistentemente que meu pai comprasse.
Diante da negativa, fiz uma birra sem precedentes, esperneei, joguei-me no chão e gritava sem parar: “Eu quero essa kombona!!!!” Também sem precedentes foi a surra que levei de minha mãe e, lógico, voltei pra casa sem o mimo desejado.
Hoje eu não tenho qualquer intimidade com o bicho de motor, até porque, a perda de meu pai num acidente colaborou em muito para o distanciamento.
Além do que, a facada de mais de 2 mil reais que acabo de tomar para colocar em dia aquela coisa que me carrega de casa pro trabalho e do trabalho pra casa anda está atravessada na goela e atravancando o meu cartão de crédito.
E viva o passeio de jegue!

criado por Vanderlei Carvalho
15:56:12Não me interrompam pelos próximos 15 minutos. Nem tentem fazê-lo porque eu não vou mais falhar com meus queridos leitores.
Depois desse ataque de Sidney Sheldon, eis que retomo o delicioso exercício de juntar palavras, formar pensamentos e ver no que dá.
E eu acordei hoje intrigado com a Operação Tesouro do Ministério Público Estadual da Bahia que, numa só tacada na manhã de ontem, levou pro xilindró uma porrada de donos de restaurantes finérrimos dessa nossa capital baiana que passou a experimentar há muito pouco tempo o privilégio de servir-se de bons garfos.
Mas eu adorei a rapelagem geral. Ainda que os caras não tenham ficado atrás das grades – Viva a fiança -, só o fato de sentirem na pele que o buraco é mais embaixo e que não dá para vender uma dupla de sushi a 25 paus ou uma reles moquequinha a 70, sem desembolsar um tostão de imposto inadvertidamente, já valeu.
Em que pese o tom tirano, não deixo de experimentar um sentimento de vingança, porque não é de hoje que venho fazendo depósitos sagrados de impostos se nem de longe considero a possibilidade da sonegação sob o medo de que o grande larápio da história, esse tal de governo, feche essa minha birosquinha que paga o leite do Vitório e a Dog Chow de Pitchulo.
Enquanto isso, uma dúzia de picaretas que ganham o suntuoso rótulo de empresários ao abrirem suas casas repletas de espelhos e pilastras gregas, segue temperando a vida com fartas pitadas de cambalacho.
Bem feito. E não tem que só prender. Tem que fechar a casa. Fazer voltar ao zero para que as coisas se acertem e entrem na engrenagem, pois é por conta de se contemporizar e se aceitar fianças que o país entrou no rumo que está.
E que o povo que A – DO – RA pagar tão caro pelo sushizinho e ser extorquido na moquequinha vá baixar em outra freguesia.
PRONTO. AGORA PODEM ME INTERROMPER!

criado por Vanderlei Carvalho
12:18:29Pois é. O Luciano Huck lançou um livro em Nova York e isto ganhou destaque na mídia. Eu não sabia que ele era escritor. Você sabia? Aliás, eu nem sabia que ele sabia escrever, pra falar a verdade.
Aí fiquei pensando que ele deve ter aprendido durante o quadro de soletração que fez em seu programa indigerível na TV Globo. Mas não sei se dava para juntar palavras e formar pensamentos em tão pouco tempo.
Sei não. Eu tô achando que essa coisa de ser escritor é mentira do Luciano. Será que ele se empolgou com a certa semelhança que tem com Pinocchio para seguir à risca o costume do boneco de pau?
Considerações à parte, é impressionante como os escritores vão explodindo em cada canto nesta nossa era de culto às celebridades. Todo mundo assume lá a sua porção Paulo Coelho e sai por aí a registrar impressões, pensamentos, idéias e maluquices. E se torna, naturalmente, candidato a uma cadeira na Academia Brasileira de Letras.
Fico imaginando agora um chá das cinco reunindo tal do Huck, a Bruna Surfistinha, o Paulo Coelho, a Marina Colasanti, a Zélia Gattai...Meu deus! Como seria isso? Nem é bom pensar porque, senão, vou acabar acreditando que também eu posso entrar para este grupo pelo simples fato de que um dia fiz um livro e insisto em juntar letrinhas neste blog que vos acompanha.
Mas voltando ao Luciano, acho que ele tem sim o direito de querer ser escritor. Como todos têm o direito de ser tudo o que quiserem.
E aí me lembrei mais uma vez de minha amiga Ulysses que dizia indignada:
“Se até Beck Klabin pode ser mulher, porque eu não posso?”

criado por Vanderlei Carvalho
10:48:45Acorda que seu filho está nascendo, ela me disse com a tranquilidade de quem avisava da hora de ir trabalhar. Para não fugir à regra, eu imediatamente me vesti de pai neurótico e passei a correr pelo quarto sem saber muito bem o que fazer. Se pegava a mala de roupa preparada havia um mês, se me lançava sobre a certeira para ver se a grana dava para um táxi até o hospital ou se tratava de tirar aquele pijama horrível ganhara no último dia dos namorados e que me sentia na obrigação de usar para não contrariar uma grávida.
Verdade é que, por mais que me sentisse preparado para a chegada daquele momento, o descontrole tomou conta de mim, pois, afinal, foi ali que caiu a ficha de que o meu filho chegaria a esse mundo. E eram muitos os sentimentos juntos num mesmo momento. Era o orgulho de me tornar pai, a incerteza de saber se saberia criar o pequeno, a indefinição sobre sexo, vez que decidimos não procurar saber com antecedência.
E vieram outros sentimentos mais profundos também naquele balaio momentâneo de emoções. Como vai estar o mundo para receber o meu filho, afinal? Como estará esta criança daqui a alguns anos se hoje, no momento em que ela chega, tudo parece tão confuso e a anunciar um futuro não lá muito promissor? É verdade! Até nisso eu pensei naquele momento em que tomara consciência de que meu filho dava os primeiros sinais de vida fora do aconchego do útero materno.
Mas tão instantâneos quanto chegaram, os pensamentos também se dissiparam. Ainda que sem perceber, liguei no automático e tratei de correr ao hospital não sem antes telefonar para o médico avisando do momento. Tudo muito rápido e poucas horas depois, repetindo a cena que só vira até então em novelas, estava eu no ir e vir do corredor a esperar a grande notícia. E ela veio. E era ele. Embrulhado num lençol como que perdido lá no fundo nas mãos de uma enfermeira.
Era meu filho que acabara de nascer e seguia já para o berçário. Não tem muito como explicar o que se sente e eu só soube soltar uma palavra ao ouvir da enfermeira ser aquela coisinha o bebê que por nove meses esperamos com tamanha ansiedade. “Caralho!” ecoou nos corredores e não houve sequer um sinal de repreensão à explosão de alegria que me fora capaz naquele momento. Era como se todos ali entendessem o que afinal se passava comigo.
Vinte e três anos se passaram desde aquela manhã de outubro. O bebê de então agora é um cara. Um grande cara. E me diz que vai se casar e, ao que tudo indica, caminhar para, em breve, experimentar os sentimentos que tive quando de sua chegada a esse mundo e os quais jamais consegui dizer a ele como eram.

criado por Vanderlei Carvalho
22:30:27