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Você acredita em inferno astral? Eu não acreditava até bem pouco tempo atrás. Para falar a verdade, até a manhã de hoje, quando voltava de minha caminhada matinal à beira-mar, que retomei esta semana depois de um longo período de abandono. Aliás, abandono que, ao meu ver, acabou entrando no pacote desse período pré-aniversário que se abateu sobre mim.
Aquele desabafo desesperado da última sexta-feira no qual eu explodia a crise em palavras que você nem merecia receber, foi, a meu ver, o sinal desse tal inferno que dizem atacar as pessoas em seu período anterior ao grande dia. Será?
Eu nunca acreditei muito nisso e boa parte dessa descrença se deveu a um certo talento que levo para a prepotência, auto-suficiência e qualidades similares.
Sempre me achei acima dessas questiúnculas (linda palavra que aprendi com a amiga Vera na Rádio Metropolitana nos idos dos 80), e me gabei sempre de poder desafiar a vida e seus acontecimentos ruins em nome de meu imenso talento para a superação.
Mas, na semana passada o bicho pegou. De repente, me vi num olho brabo do furacão, com algo parecendo que o mundo todo conspirava contra mim e eu sem entender muito o porquê. O negócio chegou ao ápice quando, no início da noite de sexta-feira, deixei aqui o registro do desespero. E isto me incomodou, porque, quando criei esse nosso espaço de encontro, o fiz com a intenção de estabelecer uma saudável área de convivência, e me achei abusando de sua paciência com leitor.
E passei o resto dos dias a pensar o que, afinal, teria me feito desequilibrar a esse pinto. Considerei a possibilidade de ter sofrido um ataque de Maria Bethânia e seu gosto pelo drama, mas não emplaquei a idéia. Ponderei que poderia ser um desejo babaca de simplesmente chamar a atenção num momento de lobo solitário e também isto não colou.
Foi então que hoje caí da cama às 5h33min e fui ter com o mar, quando uma onda um pouco maior veio e me deu aquele caldo básico que me colocou a pensar no risco de morrer de tsunami. Tremi e me lembrei que não é hora ainda de sair de cena. E lembrei ainda que estou próximo de mais um aniversário, 17 de outubro.
E aí saquei que, na sexta da semana passada, eu estava mesmo acabando de colocar os pés no período que chamam de inferno astral. E não é que o sacana existe mesmo? Mas na de preocupe, não me renderei a ele e já criei aqui diversas formas de não cair nessa armadilha.
Felicidade sempre e urgentemente!

criado por Vanderlei Carvalho
10:10:05Peço mil perdões por tantos dias parado e não vou mentir para vocês. Enfrento uma daquelas crises absurdas que nos fazem parar de repente. Nem dá tempo de pedir um tempo.
Sinto-me um pouco devedor daqueles que se acostumarm a me encontra aqui a cada dia e estou ainda mais puto com isso porque já é esta a terceira narrativa de pedidos de desculpa que lanço aqui por conta destas falhas.
Nos últimos dias tenho questionado um sem número de coisas em minha vida. O trabalho, as pessoas, a família, os amigos, os animais, as plantas do jardim de minha casa, os jornalistas com os quais tenho que me relacionar, os funcionários que insistem em dissimular e não trabalhar, a comida de nieta, o afeto do ítalo...ou seja, crise mesmo.
Daí, parei. E nem sei como é que vou voltar, mas como sei que sempre volto, espero ter recuperado um pouco do senso de humor quando isto acontecer, porque isso aqui me faz uma falta imensa.
Um beijo pra você me aguarde, por favor.
"Não, não me abandone, não me desespere! Porque eu não posso ficar sem você."

criado por Vanderlei Carvalho
17:31:19
criado por Vanderlei Carvalho
17:31:17Sexta-feira na Bahia é dia de comer caruru, vatapá, xinxin de galinha e todas essas comidas regadas a bastante dendê, certo? Errado. Sexta-feira é dia de feijoada. Mas feijoada, como eu mesmo disse aqui dia desses, não é o prato que a mãe baiana prepara no domingão? Que porra é essa?, perguntaria indignado o mais baiano dos meus amigos.
E eu explico. Sexta-feira aqui nas imediações do prédio em que trabalho é sim dia de feijoada e tudo por conta de um santo dono de restaurante desses de comida rápida que, com sua beleza quase angelical se transformou numa verdadeira atração do lugar. Para eles e para elas.
O cara é bonito fé verdade e não é aquela beleza que faz você ficar pensando em relar com ele nos lençóis macios, embora não seja esta uma idéia de todo ruim. Mas, muito mais do que isso, ele é dono de uma beleza boa de a gente contemplar. O tipo de cidadão que justifica por completo o que dizia Ulisses, amiga de longas datas: “O cafajeste que minha mãe pediu pra genro”. Tudo bem, retiremos o cafajeste porque disso o rapaz não tem nada. Mas que é esculpido para entrar na lista de disputa de sogras aos montes, não resta dúvida.
Mas o sujeito tem algo mais do que a beleza simplesmente. Ele é educado, faz questão de ir a cada uma das mesas de seu estabelecimento saber se está tudo bem, usa camisa pólo em cores que variam de um dia para o outro, ostenta uma belíssima tatuagem no bíceps avantajado sem ser bombado e tem sempre um sorriso angelical para receber sua clientela, seja deles ou delas.
Resultado: o restaurante que, até ser comprado por ele, vivia às moscas, se mantém permanentemente lotado e tenho certeza de que, por mais saborosa que seja a comida que serve, não é exatamente este o motivo central de tamanho sucesso.
A turma dos prédios vizinhos desce em cascata no horário de almoço e é hilário ver os olhares lânguidos das mocinhas ao serem abordadas pelo galã. Igualmente hilário é assistir aos caras que também ali estão por conta da bela novidade mas que, por razões óbvias, não se permitem externar o pensamento. A estes restam os cutucões e olhares atravessados entre si.
Enfim, para uma sexta-feira que anuncia a chegada do fim de semana, um almoço melhor que este tá meio difícil. E antes que acabem com a feijoada, vou descer pra cumprir meu ritual. Bom apetite!

criado por Vanderlei Carvalho
12:54:35Será que o meu país é tão desgraçadamente passivo assim que deixa as barbaridades acontecerem sem que nenhuma reação manifeste? Será que vamos ter que engolir muitos sapos até que tomemos uma atitude para mudar o estado de coisas que nos é esfregado na cara dia a dia sem dó nem piedade?
Quem de nós disser que se surpreendeu ontem com a absolvição do mal caráter alagoano na casa de mãe Joana que chamam senado federal está sendo mais hipócrita do que o maldito sujeito em questão. Nós todos sabíamos que o desenho da farsa estava sendo riscado desde as primeiras denúncias sobre recebimento de propina, dinheiro para vacas e pensões enviesadas.
Ora, de certa forma, cada um de nós povinho de merda sabe que quem está lá abre o bolso ao chegar para que caiam as gordas moedas dos corruptores de plantão. Sabemos que lobista é um nome elegante que se encontrou nesse país enxovalhado para a prática escancarada da corrupção ativa.
Inocentar Renan Calheiros é de uma provocação insana que, acaso acontecesse n’algum país com um pouco de vergonha na cara, faria estourar um levante sem precedentes. E o pior é que sabíamos mesmo dessa absolvição. Ela era dada como certa embora, como parte do espetáculo circense, veículos de comunicação travestidos repentinamente de fiéis defensores da moral não se cansassem de dar como favas contadas a condenação. Mentira.
Acostumamo-nos a ouvir que fazemos parte de um povo pacífico e festeiro e nos vangloriamos disso sem nos dar conta de que esta é tão simplesmente uma fala lapidada como chibata para conter a boiada. Lembro da piada em que deus é questionado sobre o porquê de dar ao Brasil paisagens tão lindas, ao que ele responde que, em contrapartida, se veria o povo que iria botar por aqui. E como é real isso.
O que vemos naquela Casa de Noca do planalto central hoje é a síntese do que somos. Tive que engolir, com certa náusea, uma semelhança da cara de calhorda do senador julgado ontem com a minha imagem no espelho do carro ao ouvir o veredicto anunciado no rádio.
A vontade de pegar em armas como outrora se fez e se faz ainda hoje noutros cantos foi grande naquele momento. Abominei o discurso cristão do povo pacífico e tive desejo de jogar o carro contra o primeiro símbolo nacional que cortasse o meu caminho, e não o fiz para, de repente, recolher-me à insignificância a que eu, como todos os demais compatriotas, estou relegado desde que, amedrontado pela reedição dos chamados tempos de chumbo, parei de agir.
Encostei o carro por uns minutos, respirei como que para engolir o sapo e, à minha mente veio apenas o questionamento sobre que democracia afinal é esta que nós conquistamos e que nos vai enlameando a existência e a história.
Façamos a revolução, seja ela qual e como for!

criado por Vanderlei Carvalho
23:29:33