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Como chove hoje em Salvador. Parece que São Pedro – se é que ele existe mesmo – teve lá um ataque de incontinência e decidiu soltar as comportas. A cidade, como todas as outras que não recebem um mínimo sequer de investimento em infraestrutura, padece sob poças e crateras. Padecemos mais ainda nós e nossos compromissos que temos que nos adequar ao humor do tempo.
Para chegar no trabalho, os minutos se multiplicam. Quarenta vira 200 e, se a gente tiver sorte de o carro não ferver na mais movimentada avenida, pode se dar por feliz. Não é exatamente o meu caso, já que o cuidado com o possante não é o forte pelos lados de cá.
Mas, enfim, essa chuvarada me incomoda muito, e acho mesmo que esse incômodo, mais do que por conta dos atrasos no trabalho, acontece, está lastreado com memórias passadas.
Enfrentamos lá em casa em Queluz grandes penúrias por conta dessas trombas d’água que se abatiam sobre nós de quando em quando. Cortada pelo Rio Paraíba, a cidade não suportava por muito tempo as tempestades e logo se alagava por inteiro. Nossa casa, bem próxima do rio, era constantemente invadidas pelas águas e, em algumas vezes, éramos obrigados a sair da cama no meio da noite para ajudar no que chamávamos de baldeação da água, ou seja, retirar o líquido nem tão preciso assim à base de baldes.
Como para criança tudo é festa, essa maluquice nos trazia bons momentos de farra, pois era quando podíamos nos molhar à vontade sem levar os safanões costumeiros de nossos pais.
Mas havia também as situações de tensão, já que uma das irmãs tinha verdadeiro desespero diante de raios e trovões. Era um chororô desgraçado e minha mãe se via louca com as simpatias para fazer parar o toró. Uma delas era jogar sal pela porta o que, segundo se falava, acabava com o dilúvio.
Outra era colocar fogo na palma benta que se guardou da procissão de Ramos realizada na Semana Santa. E não foram poucas as vezes que vimos nossa mãe se multiplicando para fazer pegar fogo aquelas palmas diante de uma ventania de enlouquecer.
Tempos deliciosos, com certeza. E ainda mais deliciosos se tornam diante do fato de que crescemos e passamos a incluir estas tempestades no rol dos grandes problemas que atrapalham o cumprimento das tarefas de gente grande que a gente vai elencando para a nossa vida.

criado por Vanderlei Carvalho
11:29:54Engraçado isso. Nunca fui um apaixonado pelo futebol. Aliás, eu nunca gostei mesmo, e acho estranho hoje, depois de homem flertando com a pré-terceira idade, me pegar vibrando com a possibilidade de o Vitória Esporte Clube voltar à primeira divisão do campeonato brasileiro.
Ontem à noite, voltando da escola onde fui pegar Ítalo, fiz questão de andar bem menos do que nos costumeiros 120 km/h só pelo prazer de ver o rubro-negro baiano enfiar 3 x 2 no São Caetano.
E essa paixão veio mesmo com a minha mudança para a Bahia, pois, quando vivendo em São Paulo, não tinha disso. Minhas experiências com o universo da pelota foram pouquíssimas e, invariavelmente, trágicas.
Quando pequeno, não foram poucas as vezes que fiquei com a orelha quente por tentar tirar a bola do campinho de pelada porque meus irmãos não me deixavam jogar. E tinha ainda em Queluz os temidos irmãos Anésio e Barclaia que se deleitavam em espancar os pobres coitados como eu que se aproximavam de suas partidas que mais pareciam corrida humana da demolição.
Adolescente, lembro-me de uma final de campeonato paulista entre Ponte Preta e São Paulo em que eu, dizendo-me corintiano, fui desafiar um sãopaulino roxo a apostar comigo uma caixa de cerveja de que seu time não ganharia. O apelido do sujeito era Corinho e isto parecia remeter às surras (couros) que ele dava nos meninos da cidade.
Abusado, não temi a fama de batedor do rapaz e fui assistir o maldito jogo na casa de sua namorada, minha amiga, bem ao seu lado. E o São Paulo perdeu e eu me excedi na comemoração. Subi no poste em frente à casa e arranquei a bandeira do seu time e fazendo dela tapete.
Ora, o cara tinha bem uns 4 anos mais do que eu, então com 16. Com a gana de um torcedor fanático, ele me espancou e cheguei em casa todo arranhado e com uns dois hematomas bem avantajados. Tudo bem que os anos se passaram e nos tornamos amigos, sendo eu até seu padrinho de casamento. Mas que foi uma bagaceira, lá isso foi.
Talvez por conta destas experiências, digamos, indigestas, eu tenha me mantido sempre longe dos estádios. Já fui chamado algumas vezes para ir à Fonte Nova em Salvador para assistir a um Ba-VI. Mas, sabedor que sou da minha habilidade para arranjar confusões, inversamente proporcional à capacidade de livrar-me delas, vou por aqui mesmo alimentando essa repentina paixão pelo esporte nacional e optando pelo interior do meu carro como melhor lugar para exercitar a paixão.
E seremos todos felizes para sempre. Dá-lhe Vitória.

criado por Vanderlei Carvalho
06:51:27Li algo que me deixou com pulga atrás da orelha. O Luciano, irmão do Zezé Di Camargo, que é pai da Vanessa, que é marido de Zilu e que canta eu não vou negar que sou louco por você não acredita no movimento Cansei e se trata de uma coisa de uma elite paulista metida a besta que não sabe o que é ficar em fila de aeroporto.
O que? O Luciano pensa isso?
Reformulando: o que? O Luciano pensa?
Mas não é ele o lado abestalhado da relação dos dois irmãos tipo príncipes do sertanejo nacional? Não é ele que faz linha calado está errado e que deixa para o irmão Zezé o espaço para se manifestar e dizer das déias (sic) que permeiam suas cabeças?
Fiquei sim surpreso com o que eu li. Mais ainda, fiquei puto, porque eu já estava para detonar essa palhaçada do Cansei aqui e não encontrava muito saco para me ater a esse movimentozinho daquele pessoalzinho vestido de preto com óculos de aro preto que adora caminhar na Avenida Paulista depois de uma cafezinho no Franz gritando palavras de ordem retiradas dos livros lidos na USP.
É, Luciano, fico imaginando que, se você está vendo maracutaia atrás desse negócio de Cansei, é porque tem coisa mesmo. E aí fiquei imaginando que até na sua atitude de vir a público levantar a voz contra isso, pode haver também uma armaçãozinha. Pois, afinal, o seu irmão aderiu ao movimento da turma de São Paulo e poderia tê-lo induzido a fazer o contrário fiando-se no pensamento unânime de que sua voz não tem vez e de que você não passa de uma segunda voz insisgnificante diante dos trinados insuportavelmente potentes de parte dele.
Sei lá, rapaz. Só sei que esta sua primeira aparição pública emitindo uma idéia fez você ganhar ponto comigo. Só acho que não precisava você dizer que está querendo fundar um outro movimento, o CAGUEI.
Por que isto, meu amiguinho....você já faz com a nossa música. E faz tempo.

criado por Vanderlei Carvalho
11:07:49"Vanderlei desça correndo. Eu vi o Vitório na rua, próximo daquela construção". Segurando o pequeno Gabriel pela mão e com a menina Bruna no colo, a vizinha Patrícia trazia uma rápida tranqüilidade à angústia que tomara conta de mim desde o momento em que chegara do passeio à praia para ver a lua cheia.
Havia convidado Ítalo e os mesmos Gabriel e Bruna para aquela volta à beira-mar já perto das 8 da noite e, num último momento, decidi levar também Pitchulo que, ao nos ver preparando para sair, resolver reclamar. Peguei o cachorro e decidi que levar o gato não seria uma boa idéia, já que ele poderia gostar muito daquela liberdade toda e, dali mesmo, ganhar o mundo. Mas, como prêmio, decidi também não prendê-lo em casa e deixá-lo explorando o jardim do condomínio como de costume.
Foram perto e hora brincando na areia da praia, olhando a lua, sentando em bancos e falando de lobisomem. Na volta pra casa, uma festa só, com as duas crianças mais eu e Ítalo prometendo novas aventuras. Na chegada em casa, desembarcamos Pitchulo e vamos chamar Vitório para se recolher. Qual nada. O gato não deu sinal de vida. Eu mais Gabriel varremos o condomínio todo a chamá-lo e nada.
Saímos na rua e chamamos....Olhamos na vizinhança. Gabriel lamentava: “Ele foi embora, tio?” E eu já dando como certo o sumiço do pivete, comecei a me lembrar de outros bicos que criei e que se foram. Sempre por conta da decisão em não mantê-los presos por completo, não utilizar coleiras ou correntes dando-lhes o direito de se manterem livres como vieram ao mundo. Passei a imaginar que Vitório voltaria. Disse ao menino Gabriel que ele iria voltar assim que sentisse fome. Lembrei de minha amiga Arlete e do esporro que me daria quando soubesse do acontecido. E tome culpa!!!
Por fim, já dando como certo que não seria naquele momento que eu ia recuperar meu bichano, subi e fui ver tv sem, na verdade, prestar atenção em um sequer dos 170 canais pelos quais passei. Por isso, o chamado de Patrícia provocou-me um sobressalto e, em 10 segundos, lá estava eu ao seu lado, descalço pronto a buscar o meu gato.
Fomos até a rua e chamamos pelo nome. Nada. Fui até a tal construção e também nada. De repente, um grito de Patrícia. “Olha lá, é ele”, disse apontando para o matagal em frente ao condomínio. E realmente um bichano malhado como Vitório nos viu e saiu em disparada.
Mais esperto, Gabriel sentenciou: “Não é não, tio. É o irmão gêmeo dele” . Realmente, entre os moradores de rua das redondezas há um em plenas condições de ser confundido com Vitório e, naquele momento, a rapidez de sua carreira mostrou que não era realmente o meu gato bem mais calmo depois da castração.
Decepcionado e triste, subi para dormir acreditando que, na manhã de hoje meu pequeno animal já não tão pequeno assim retornaria. Mas, no fundo, um temor de que isto não acontecesse. Por via das dúvidas, deixei abertas as duas laterais da porta da sala de modo que ele, se voltasse, pudesse entrar sem problemas. E fui mesmo dormir.
Depois de uma noite difícil, entre cochilos e sobressaltos, decidi pular da cama às 4h40min e ir à caça de Vitório. Vesti às pressas uma roupa qualquer disposto a cair na rua, ainda na escuridão, em busca de meu companheiro sedutor.
E eis que saio do quarto e me deparo com aquela figura encantadora sentada no centro da sala, olhando para mim como a dizer: “Eu voltei, agora pra ficar/eu volte, aqui é o meu lugar”.
E emocionado me joguei sobre ele prometendo nunca mais ver a lua sem antes ter a certeza de que o deixei muito bem guardado em seus aposentos.

criado por Vanderlei Carvalho
09:38:04Não, eu não sou relapso e a sensação de que você possa estar pensando assim a meu respeito hoje me deixa aguçada aquela culpa de estimação da qual já tratei aqui. Eu sei que faltei com você ontem e que você correu aqui para ver o que eu teria escrito. Mas, amigo, amiga....tem hora que tudo o que a gente quer é ter um dia de 48 horas e disposição de um king kong pra continuar dando conta das estripulias que a gente mesmo inventa na vida.
Não vou dissecar o meu calvário dos últimos dias aqui, porque sei que também a sua vida não deve estar muito diferente da minha. Somos escravos e ponto final. Escravos de nós mesmos na maioria das vezes, pois, se a gente der uma olhadela mais aprofundada com aquele olhar de querer consertar, vai ver que se livra facilmente das arapucas que inventa. Entendeu alguma coisa? Fácil. Basta sacar que o post de hoje não serve para outra coisa senão para justificar o fato de não ter postado ontem e de, por muito pouco, repetir a falha hoje.
Mas você não merece tamanha desfeita, dada a dedicação com que tem me visitado diariamente. A ponto de eu desejar, em alguns momentos, promover uma convenção dos leitores assíduos do meu blog. E fazê-la à beira da piscina de meu paraíso nos domínios de Buraquinho. Sabe que não é má idéia? Talvez eu pare de bater na tecla do ser solitário conformado e reencontre o prazer de deliciosas companhias. Sei que você há de ser uma delas.
Mas, enfim, cá estamos nós, 27 graus na cidade do Salvador, sexta-feira de branco e eu feliz demais por estar reencontrando você. E devo dizer que domingo estarei encontrando o meu amigo J.Veloso com quem vou cantar uma canção romântica e fechar com chave de ouro esse findi que se achega por hora.
Bom dia pra você também.

criado por Vanderlei Carvalho
08:08:08