| S | T | Q | Q | S | S | D |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 1 | ||||||
| 2 | 3 | 4 | 5 | 6 | 7 | 8 |
| 9 | 10 | 11 | 12 | 13 | 14 | 15 |
| 16 | 17 | 18 | 19 | 20 | 21 | 22 |
| 23 | 24 | 25 | 26 | 27 | 28 | 29 |
| 30 | 31 |
Ele chamou um dia um publicitário que conhecia de ouvir falar e disse: “Rapaz, tenho um negócio do outro mundo e vou precisar da sua ajuda. Estou trazendo pra cidade uns banheiros que podem ser transportados e vou alugar para festas, eventos, pra tudo quanto é coisa. E vou ganhar muito dinheiro. Preciso que você me ajude a colocar isso na boca do povo pra poder acontecer. Só que eu não tenho dinheiro pra lhe pagar. Mas prometo: assim que começar a acontecer, eu contrato você para todos os meus negócios que virão e você vai ficar rico comigo”.
Calejado dos calotes que tomara nos 15 anos de atividade e cheio de ouvir promessas que jamais lhe encheram a barriga, o publicitário não quis ouvir o que o cara tinha para lhe dizer mais. Foi inventando desculpas, falando de compromissos outros, lembrando de campanhas políticas que havia assumido embora estivessem a dois anos da próxima eleição e tratou de despachar o sujeito.
Persistente, o desendinheirado futuro próspero empresário – até então próspero somente em sua cabeça – continuou a buscar apoios para botar seu bloco – ou banheiro – na rua. Chamou outros publicitários, consultou jornalistas, ligou para os primos, aconselhou-se com cartomante....Mas ninguém, ninguém acreditava naquele seu negócio de banheiro ambulante.
Vendo que não conseguiria mesmo qualquer tipo de parceria pra sua empreitada, decidiu seguir solitário o seu caminho. E passou, de casa mesmo, a oferecer seu produto revolucionário. Foi difícil no começo. Sem contatos nos meios que mandavam no quesito eventos, ele fez verdadeiras estripulias para acessar os mandas-chuva. Foi a casamento sem ser convidado, comprou convite de festa com o dinheiro da conta de luz, sangrou o cofrinho do filho pra comprar abadá do bloco da onda. Enfim, foi uma labuta.
Até conseguir emplacar o primeiro banheiro. Foi tomado de uma emoção enorme ao ver saírem pessoas aliviadas de dentro daquela casinha verde que ele alugou para o grande show no clube da cidade. Depois disso, veio o boca a boca (se é que cabe aqui o termo) e os sanitários químicos viraram coqueluche.
Com o sucesso, o nosso agora um pouco mais endinheirado personagem decidiu diversificar os negócios e acabou, ele mesmo, se transformando num dos principais organizadores de eventos da cidade. Depois, do Estado. Depois, de outros estados. Mas sempre tendo nas suas mega-produções os um dia desacreditados banheiros químicos que, agora, ganharam novas modelagens e já tinham apresentação bem mais elegante.
E o cara virou notícia. Empresário famoso, passou a ter fotos suas publicadas quase que diariamente em jornais e revistas.
Certo dia, ao folhear uma destas publicações na sala de espera de um consultório médico, o primeiro publicitário a negar apoio ao rapaz tomou conhecimento da sua brilhante escalada e não conteve a exclamação:
“Caramba! Sempre ouvi falar de empresário que acabou na merda! Mas que começou na merda, essa foi a primeira”.

criado por Vanderlei Carvalho
10:20:43- O que você faz da vida?
- Um bocado de coisas, mas, prioritariamente, eu sou jornalista, respondi àquele garoto de não mais que 22 anos que parecia muito mais ansioso por uma conversa, qualquer que fosse ela, do que por uma resposta à pergunta feita asim, de supetão. Ele havia se aproximado de mim fazia uns 2 minutos e a abordagem me surpreendeu. Primeiro perguntando as horas, ao que eu respondi não saber. Não tenho e nem gosto de relógios, resquício da minha brava resistência à ditadura dos horários impostos pelo mundo capitalista que insiste em te enquadrar em seu tempo como se já não fosse o bastante tê-lo feito em seu espaço.
Mas a minha negativa em dizer as horas não impediu que aquele garoto continuasse na tentativa de um diálogo. Outras perguntas vieram e todas respondidas monossilabicamente no firme propósito de abortar uma possível conversa mais longa. Mas a pergunta sobre o que faço da vida veio acompanhada de uma quase angústia que denunciava que aquele menino queria ser ouvido. Mais que isso, ele queria atenção.
Portanto, senti que, qualquer que fosse a resposta que eu desse, ela se enquadraria aos seus propósitos.
- Ora, se você é jornalista, você conhece meu pai. É o fulano de tal, que mexe com comunicação e também é ligado com teatro e é casado com cicrana.
Ora, eu não perguntei nada daquilo e, num primeiro momento, tive vontade de sair dali e deixar o menino falando sozinho e dizendo ao vento a sua árvore genealógica. Mas não sei porque, a forma com que ele falava, a sua entonação numa mistura de embargo e ansiedade, pareciam apontar que ele precisava dizer algo para alguém. Pareciam pedir que alguém mostrasse interesse no que tinha a contar.
- Sim, então você é filho de fulano. Conheço sim, sei quem é...
- Quer dizer, ele não sabe que eu sou filho dele. É o seguinte: minha mãe era mulher fácil e quem me registrou foi o meu tio. Sabe, mulher fácil, que eu tenho até vergonha de dizer o nome disso. Pois é, o meu tio que me registrou, mas ele sempre me renegou e nunca gostou de mim...
Bem, àquela altura eu já não importava tanto se me incomodava estar ouvindo tanta coisa que não me dizia respeito. Não sei se pela curiosidade nata ou se pelo desejo de ser mesmo o ouvinte do jovem angustiado, decidi prolongar o papo.
- Sim, mas o fulano não sabe que você é filho dele. E como você sabe? Sua mãe lhe falou?
- Não, eu não confio na minha mãe, eu não acredito nela. Eu só sei que vi uma foto do fulano na revista e achei ele parecido comigo. E meu tio que me registrou é irmão dele. Só que eu não pareço com meu tio, pareço mais com ele. E ele é um cara muito legal, eu leio muito sobre ele.
- Mas isso não prova que você é filho dele. Sua mãe teve um caso com ele, namorou ele?
- E você acha que ela ia me contar? Eu já disse que não confio nela. Mas veja só: meu tio sempre me rejeitou, nunca me tratou como filho e faz questão de dizer que é meu tio. Aí eu vejo o irmão dele e sinto uma coisa estranha e sinto que me pareço muito com ele.
- Ih, rapaz, isso pode ser uma roubada. Você pode estar na paranóia. Converse com sua mãe e pergunte a ela.
- Não, eu vou conversar com ele e pedir um exame de DNA, porque tenho certeza de que ele pode ser meu pai. Eu preciso saber que tenho um cara legal que é meu pai. Fico perdido, não consigo estudar, não consigo fazer nada direito.
- Mas você já foi atrás dele algum dia?, eu tento arrumar o quebra-cabeça.
- Fui umas três vezes na escola dele e o segurança não quis deixar eu entrar.
Bem, eu estava atrasado para um compromisso e não dava para continuar ouvindo aquela história que me pareceu confusa demais. Paguei o maltine que acabara de tomar no Bob’s ali do shopping e desejei sorte ao garoto na sua tentativa de saber quem é seu pai. E esqueci o caso, como a gente sempre esquece tanta coisa que se passa na vida da gente num dia como outro qualquer.
Hoje, como de costume, acordei cedo, mas não cumpri o costumeiro ritual da caminhada à beira-mar. Fui para a Internet ler as primeiras notícias do dia. Uma manchete chamou-me a atenção no primeiro jornal local acessado: “Polícia mata estudante que tentava invadir escola”.
Eu não sabia o nome do garoto que me abordou no shopping, mas achei difícil não ser ele o personagem daquela triste notícia.
E ele só queria um pai.

criado por Vanderlei Carvalho
10:02:39Hoje não tem post, assim como hoje não tem trabalho, assim como hoje não tem apetite, assim como hoje não tem brincadeiras, assim como hoje não tem marmelada, assim como hoje não tem quase nada.
Hoje não tem como ter gosto de escrever e hoje eu mordo a minha língua. Pois hoje é uma sexta-feira e já disse aqui que ela é soberana e tudo supera. Mas, que nada. Não há sexta-feira que suporte esse mal estar.
E o vizinho decide quebrar a parede também hoje. E nem adianta o edredon sair do armário pra bloquer o barulho, pois, do outro lado, a maquita ligada de outra obra me lembra que não estou só nesse mundo. E outra vez eu mordo a língua, pois solidão, meu caro, não existe mesmo.

criado por Vanderlei Carvalho
10:32:18Blogueiro gripado. Muito gripado. É a tal da viorose, essa desgraçada que insiste em me pegar de quando em quando como se nada tivesse para fazer. Então eu me rendo. Hoje não vou ao trabalho, não vou sentir culpa, não vou ver tv e nem vou comer tanto assim. Meu corpo está moído, ora bolas. Não tem corpo pra nada.
Ah, mas o Votório foi castrado e tem que cuidar dele. Mal humorado, o rapaz até já me soltou um arranhão no rosto. Ou seja, a maré pelos lados de cá hoje não está pra peixe. E ainda tem que sair pra comprar antinflamatório e merthiolate pra cuidar do saco do gato que foi cortado.
Mas e quem cuida de mim, santo deus? Nieta varre a casa como se fosse a coisa mais normal do mundo ver o sinhozinho aqui espirrando como um condenado frente ao ataque da poeira. E não adianta reclamar, porque ela não para mesmo.
Definitivamente, é um complô. Estão querendo ver até onde eu consigo ir na decisão de permanecer na minha própria casa. Eu não vou arredar pé, não adianta. Peguei a tal da virose e agora vou me dar o direito de amolecer.
Mas tem evento amamhã, tem evento depois, tem convite pra soltar, tem follow pra fazer....Não tem jeito...De casa eu não saio. Mas casa tem computador e ele funciona muito bem obrigado e pode me linkar com o escritório.
Quer saber? Blogueiro tá gripado, tá quebrado, mas vai ter que se virar. E que passe logo essa gripe, pois, do contrário, blogueiro é um homem louco.

criado por Vanderlei Carvalho
10:13:06Gripe deveria vir acompanhada de induto. Explico: quando é atacado pela maldita você tem dores no corpo, fica indisposto, sente que foi espancado na esquina. Mas não há Cristo que lhe diga que é doença. E aí, se você é funcionário, nem pense em conseguir um atestado médico, pois, ainda que o consiga, o patrão vai olhar de soslaio como que a lhe dizer: “Você está armando, vagabundo”. E se você é patrão, dono de seu próprio negócio, não se sente no direito de queimar a jornada por causa da desditosa. E, se queima, tome-lhe culpa.
Meu dia ontem foi assim, de cama. Gripe da braba. Que até começaram a recriar a nomenclatura para ver se emplaca a história da doença. Agora é virose. Virou papo corrente. Pra quem você diz que está com uma gripe desgraçada, vem logo a frase pronta: “Ah, é essa virose que ta se espalhando por aí e pegando todo mundo”. E sempre tem alguém que conhece alguém que conhece alguém que conhece outro alguém que pegou e ficou de cama três dias.
Não, minha culpa de estimação não me permite três dias numa cama por mais que o corpo o peça. Normalmente, quando sinto que o corpo está baqueando e o negócio começa a pegar, trato de pular da cama cedo e dar um mergulho no mar pra espantar a tal coisa.
Mas ontem foi difícil. Até tentei fazer isso às seis da manhã, mas uma paixão avassaladora pelo colchão e pelos lençóis foi mais forte que eu. Segurei até as 7 e meia e o olhar para o relógio que se aproximava das 8 fez baixar a bola. Era a tal da culpa....Não, não vou trabalhar, não há condições. Tudo bem, fico em casa, mas ligo o computador e daqui mesmo passo a despachar e decidir coisas. Tento ainda travar uma briga com a tal gripe e decido levar Vitório à clínica para os exames pré-operatórios. Retorno ainda mais indisposto, como se tivesse apanhado dos meninos na rua.
O almoço desce cambaleante e a cama me chama de novo. Eu vou viver minha história de amor com ela. Fim de tarde e um banho pode ajudar um pouquinho, mas é difícil sentir-se melhor de uma hora para outra. Televisão, Marion, Olavo, Pan de novo, Multishow...Não dá. Tem uma cama amada amante a me chamar.
Mas amanhã não dá para vacilar. Um pouco mais cambaleante que o almoço, caio nos braços de minha amada e rezo para que pela manhã não haja mais essa sensação horrível de que o mundo acabou sobre mim. E que finalmente um destes cientistas que se esmeram em declarações bombásticas venha a público anunciar que a gripe é um mal perigosíssimo que precisa ser tratado por 7 dias e 7 noites a bordo de uma cama muito macia sob o risco de dizimar a espécie humana. Sem culpas.

criado por Vanderlei Carvalho
00:07:12