Blog do Vanderlei Carvalho

Acesse também www.vanderleicarvalho.com.br e fale comigo através do vanderlei@contraponto.jor.br . Vamos fortalecendo nossa relação por aqui.

Blog do Vanderlei Carvalho

Acesse também www.vanderleicarvalho.com.br e fale comigo através do vanderlei@contraponto.jor.br . Vamos fortalecendo nossa relação por aqui.
<  Junho 2007  >
S T Q Q S S D
        1 2 3
4 5 6 7 8 9 10
11 12 13 14 15 16 17
18 19 20 21 22 23 24
25 26 27 28 29 30  
Buscar
Receba os posts
Terra Blog

Arquivo de: Junho 2007

29.06.07

SOBRE UMA GRANDE AMIZADE

Vou relatar pra você uma parte rápida da minha vida, Mas superdeterminante para o que viria depois no caminho profissional que trilhei e ainda venho trilhando. Era 1982 e eu cursava Jornalismo e consegui arrancar estágio numa emissora de rádio de Mogi das Cruzes. Sabia absolutamente nada de que caminho se tomava dentro de uma emissora. Só sabia que queria ser jornalista. Foi num momento de definição, pois eu deveria deixar um emprego que me garantia o dinheiro pra pagar a faculdade e meter as caras num estágio de 30 dias que, sabia lá sabia lá deus se daria certo.
Mas eu fui, com cara e coragem. Num primeiro momento, quando olhei as caras todas que me fitavam naquela emissora, pensei desesperado: “Ai, meu deus. Caí no ninho da serpente”. Era coisa de maluco. Neguinho nem sabia quem eu era e já me olhava com olhos de arrancar fígado (se é que olhos arrancam mesmo fígado).
Mas, no meio daquilo tudo, tinha um figura a olhar diferente. Olhar de solidariedade, sabe? Olhar de dizer: “Relaxe, menino, as coisas podem não ser tão ruins”. E eu, por obra e graça de algum anjo da boca bem dura, caí nas mãos daquela criatura. Seria o seu estagiário.
Ela era repórter da emissora e a mim caberia acompanhá-la em suas andanças atrás de matérias para aprender do ofício de ser jornalista.
E como aprendi! Não aprendi apenas ligar a geringonça que o patrão insistia em chamar gravador ou percorrer as ruas da cidade a pé atrás de assunto para gerar seis notícias e duas montagens gravadas. Aprendi valores, aprendi princípios éticos, discernimento, distanciamento, neutralidade, vírgulas, inflexões vocais....Enfim, aprendi com ela a ser um profissional.
O tempo passou, permaneci na emissora contratado e nos tornamos grandes amigos. Nos tornamos, para meu orgulho, colegas de trabalho e cúmplices em nossa atividade profissional. Moramos juntos na mesma república, nos separamos por conta de escolhas outras na profissão mas, felizmente sempre, nunca perdemos o contato. Vivemos momentos tristes em nossas vidas e estivemos juntos também neles. Descobrimos que temos uma irmandade de alma e isto nos alegra muito sempre.
Hoje é aniversário dela e me alegra muito poder estar ao seu lado, comemorando, surpreendendo-a ao aparecer do nada quando ela me imaginava bem longe desse restaurante baiano na Vila Madalena. O nome dela eu não vou revelar aqui porque, se há algo em que somos imensamente diferentes é que ela é dona de uma discrição exemplar, enquanto que eu....Ah! Chiquita bacana perde. Mas, enfim, o que importa aqui é o valor de uma grande amizade e o fato de que você, caro parceiro dessa vida virtual, há de saber neste momento onde foi que eu me meti nestes últimos três dias. E há de apoiar o segredo que mantive a duras penas. Feliz aniversário, minha grande amiga.

28.06.07

SOBRE SEGREDO E SUPRESSÃO

Lamento informar, mas eu ainda não posso lhe dizer pra onde eu fui. Ou pra onde eu vim, já que cá estou. E o pior é que eu não consigo guardar segredo por muito tempo. Mas, numa conduta no mínimo flagrante de minha queda pela autodestruição, não consigo guardar os meus segredos. Os dos outros, eu sempre reservo para o mais fundo da tumba de Tucancamon.
Nunca fui de ficar guardando coisas que digam respeito a mim, e há quem diga que isto me faz mal. De certa forma, eu também acho, porque sempre que abro alguma coisa pra alguém (entenda, por favor, o que quero dizer com isso e não levem pro mato essa informação) acaba sempre vindo a rebordosa. Ou a coisa sobre a qual eu falei não acontece, ou acontece de forma errada ou então o contrário se abate.
Uma vez fui assistir a um show de Edson Cordeiro no Parque da Cidade, em Salvador, e, enquanto aguardava o momento de ele subir ao palco, fui dar uma volta pelo parque em companhia do menino Ítalo. Paramos em frente a uma tenda onde aconteceria uma palestra sobre a Cientologia. Diante de todas as coisas que li a respeito dos adeptos da religião – Tom Cruise à frente deles -, decidi assistir ao evento.
Ouvi um monte de coisas naquela palestra, mas o que mais me chamou a atenção foi o tratado que o cara fez sobre o “Movimento da Supressão”, através do qual, ao contar as coisas de sua vida para alguém, ao abrir os seus projetos, você está colaborando para que tudo desande.
Fiquei pensando que aquele cara tinha lá sua razão. Comecei a me lembrar de quanta coisa quis fazer e saía espalhando mundo afora o meu desejo e, no fim, nada acontecia. Já projetei viagens para Nova York, para a Grécia, já quis comprar uma coisa ou outra, já imaginei grandes feitos no trabalho e, o simples fato de contar para as pessoas, fazia com nada se concretizasse.
Mas o segredo que lancei no post de ontem, por mais que me doa, por mais que os dedos e a língua estejam coçando neste momento, este você não vai saber. E não me venha com tentativas e promessas de recompensas. Afinal, essa coisa da Supressão é uma aliada minha neste momento e eu não posso, em hipótese alguma, deixar suprimir o motivo que me trouxe aqui e agora.

27.06.07

SOBRE PRA ONDE EU VOU

Definitivamente, eu não gosto de descumprir promessas. Mas, lamento informar que bem provavelmente hoje você não terá um post meu por aqui a não ser esse pedido de desculpas. Explico: estou a 10 minutos e voar para o aeroporto onde embarco daqui a pouco para um lugar que não posso, nem sob tortura chinesa, revelar.
Você pode até passar o tempo tentando imaginar para onde iria esse moral em plena quarta-feira à tarde. Que local secreto é esse que eu não posso revelar, hein? Pois é, não posso mesmo, mas fica aqui a promessa de que, logo você saberá.
Eu poderia estar indo para o Alaska, para a Venezuela ver o Brasil na Copa América, para a fazenda do Renan comprar bois na pechincha, para noviorque assistir à primeira coletiva da Paris Hilton após a libertação, para Londres ver a posse do novo primeiro ministro, para o Rio de Janeiro assistir jovenzinhos imbecis de classe média espancar empregadas domésticas, para o Barradão ver o Vitória surrar a Ponte preta.
Sei lá, poderia estar indo para qualquer um desses ligares, mas não vou. O lugar para onde vou é especial e mais ainda o é o motivo que me leva a ele. Prometo, de pés juntos e sem cruzar os dedos, que vou revelar em breve.
Enquanto isso, respire fundo, imagine o meu olho colado no seu, pense em uma palavra bem bacana para me xingar...E até o próximo post. Au revoir! Hahaha. Também não vou pra Paris, mané !

26.06.07

SOBRE A INSPIRAÇÃO

Estava aqui pensando....O que é a inspiração? O que faz a gente ter uns rompantes e, de repente, parir algo quer emocione, que impressione e sobressalte o outro? Aí você me pergunta: “Qual é a desse cara de estar levantando essa lebre da inspiração a essa hora? Pra que? Porque?” E eu prontamente te digo, meu caro, que é exatamente por conta da minha falta de inspiração no momento em que vim pra cá atualizar esse nosso ponto diário de encontro. De repente....pow! Deu branco. E nada quis sair.
Aí, já que não fazia nada, nada saía daqui, comecei a conjecturar acerca da tal da inspiração. E, de repente, começaram a vir em minha mente momentos e pessoas que tiveram a felicidade de terem sido mordidas pelo bicho da inspiração uma, duas, cem, mil vezes, milhões delas. Sei lá porque, a primeira pessoa que me veio à mente foi Dorival Caymmi. Fiquei pensando como aquele cara pode ser tão feliz em escrever coisas como “É doce morrer no mar” ou “O mar quando quebra na praia, é bonito é bonito”.
Parece que o velho Caymmi abriu a porteira da minha memória e eu fui puxando outros e outros que me emocionaram com seus momentos de inspiração. Woody Allen, por exemplo. Como é que o cara tem o saque de fazer um filme como Zellig e depois voltar a surpreender com A Rosa púrpura do Cairo e Contos de Nova York? Há quem acredite que o hábito faz o monge ou, em outras palavras, a repetição leva à manutenção. Eu não acredito nisso. Acredito mesmo que os criadores, os grandes criadores, são acometidos de um choque repentino que os conduz ao momento mágico da criação.
Como explicar, por exemplo, os volteios da voz sagrada de Milton Nascimento nas interpretações antológicas no disco Sentinela? Ou os olhares cortantes e desconcertantes de Glória Pires quando construiu tão perfeitamente a vilã Maria de Fátima? Por falar nisso, assisti hoje pela sexta vez o filme Eclipse total e, como se fosse a primeira, cheguei quase às lágrimas com Kathy Bates na pele da mãe atormentada pela culpa de ter matado o pai que abusava da filha. Que mulher retada aquela. Tem uma capacidade impressionante de se comunicar com os olhos. Por falar nisso, e voltando à Glória Pires, lembrei-me agora de o diretor Fernando Guerreiro ter feito o seguinte comentário: “Ela (Glória) é insuportável. Pode estar de costas que fala com o cabelo”. Ri muito, mas entendi o que ele quis dizer.
Aliás, Guerreiro é outro cujos momentos de inspiração merecem total atenção. Acho que uma das primeiras peças suas que assisti foi A casa de Bernarda Alba. Fiquei emocionadíssimo com tanto cuidado, com tanta entrega e ali eu já sentia estar diante de um diretor absolutamente inspirado. Vieram outras e depois, mais adiante, tive a felicidade de acompanhar o seu processo criativo e inspirado de perto, quando eu fui produzir o megasucesso A Bofetada, dirigido por ele. Repetimos a parceria em O beijo no asfalto e, depois disso, desisti da produção. Faltou-me, digamos, mais in$piração. Ou piração mesmo.
E tem aquelas “inspirações” que só convencem mesmo aos inspirados. Lembro-me de ter ido visitar a Bienal de São Paulo uma vez e saído de lá praguejando o sacana que me convenceu a ir, pois eu já tinha os pés atrás com o evento. De repente, me vi tendo que descobrir inspiração e arte num túnel feito de palito de picolé (que eu já fazia no ensino primário lá em Queluz); me peguei ainda atravessando uma caverna de pneus muito parecida com aquelas que fazia nos fundos lá de casa, e quase me flagrei copiando a turma do “Ohhhhhhhhhhhh!” que parece contratada para estes lugares tal qual as carpideiras para um velório. Mas, como dizia mamãe, “há quem goste dos olhos e os que gostam da remela”.
Bem, mas eu rodei, rodei, gastei mais de três mil caracteres, e nada de a inspiração chegar.
Vou dormir meio decepcionado, confesso. Mas prometo que não vou me matar. Pois para isso, ainda bem, sempre me faltará a tal da inspiração.

25.06.07

SOBRE O RITMO DO BAIANO

Viver na Bahia é encantador. Desfrutar da qualidade de vida que essa terra oferece, ter o privilégio de conviver com a docilidade dessa gente morena, escutar cada som que sai das esquinas e dos becos como se fosse um novo a cada segundo é algo indescritível. Lá se vão quase 22 anos desde que desembarquei aqui num novembro e finquei estaca para não mais sair.
Mas viver na Bahia tem também lá os seus percalços e se você não trouxer consigo uma certa dose de resignação (seria mesmo esse o termo), volta correndo para o seu lugar de origem praguejando para sempre os que cantaram em seus ouvidos a “terra da felicidade”. Eu mesmo, há dias em que sinto vontade de pegar as coisas e sair correndo, abandonar de vez a terrinha (como costumam dizer os baianos) para nunca mais voltar.
Essa terra e esse povo têm um jeito de ser que às vezes irrita. Principalmente a nós, que chegamos contaminados com o sobe-e-desce das escadas de uma estação de metrô, ou que atravessamos uma avenida inteira sem dar conta do que acontece ao nosso lado ou na frente do nosso nariz.
Aqui é diferente, amigão. Já ouvi alguém falar da existência de um estudo antropológico segundo o qual o ritmo do baiano é lento porque ele descende dos negros que vieram direto da África para cá, sem fazer qualquer escala, diferentemente dos que desembarcaram no Rio e São Paulo já tendo passado pela Europa e, portanto, sido contaminados pelas regras do capitalismo. Os negros daqui, segundo o estudo, teriam mantido o seu ritmo e dele não abrem mão.
Não sei o que há de verdade nisso, e nem fui buscar esse tal estudo, mas que há uma certa lógica, isso há. É impressionante como ninguém, absolutamente ninguém consegue alterar o ritmo do baiano. A lenda de que ele é preguiçoso é mentirosa e não passa de resquícios do preconceito dos que ainda acham que fazer algo errado é “fazer baianada”. Não há preguiça aqui, pois eu acho muito difícil imaginar um engravatado do Brooklin, da Paulista ou de qualquer outro centro nervoso do planeta passar doze, catorze horas sob um sol escaldante numa areia ardente de praia vendendo cerveja e ainda criando rimas e músicas de improviso para se destacar frente à concorrência.
O que o baiano tem é um ritmo próprio mesmo do qual ele não abre mão, ainda que isto lhe custe algumas perdas. Lembro-me de quando cheguei aqui, ter saído num domingo para almoçar e ter levado um susto ao deparar com um restaurante que ostentava uma placa na qual se lia: “Fechado para almoço”. Era a deixa do que viriam nos anos subseqüentes.
Ainda hoje me surpreendo e me irrito com algumas coisas. Semana passada decidi dar folga para a empregada e, passados três dias e vendo que poderia morrer atolado na poeira, decidi pedir um faxineiro a um serviço especializado para sexta-feira. Marcado para as 8 e, frente ao atraso de meia hora, telefonei para o serviço cobrando explicações. Ouvi da atendente o óbvio – que ele faltou – seguido da pergunta: “O senhor quer fazer o que?” Minha filha, quem deve perguntar o que fazer sou eu a você, respondi. Como que dando de ombros, ela disse: “ Ele faltou, paciência”. Depois de quase uma síncope, liguei para a matriz do mesmo serviço e relatei o fato. Solícito, o atendente me prometeu outro faxineiro, mas para o dia seguinte, sábado, no mesmo horário. Obviamente, nem toquei nas crostas de poeira da casa aguardando o profissional prometido.
Sábado, 7 e 40 da manhã, o telefone toca e eu me tremo todo. Não !!!, o sacana não vem e está ligando para informar! Felizmente era sim o rapaz, mas informando que chegaria um pouquinho atrasado, no máximo 8 e meia. Achei simpático de sua parte e resolvi esperar. E esperar muuuiiiiiito.. Eram 9 e meia da manhã e nada do moço. Dez horas, eu desisti. Peguei vassoura, flanela, balde, desinfetante, sabão em pó e a cumprir minha sina de “Maria por um dia”.
Não é que às 11 horas tocou o interfone e fui atender me deparando com uma pessoa com cara de nada dizendo que estava aqui para fazer a faxina do “seo” Vanderlei!
Como o sujeito nunca havia me visto mais careca nem mais bonito, disse a ele que “ seo” Vanderlei cansou de esperar e saiu para o trabalho. Foi a única forma que achei de me vingar, embora até tenha sentido certa pena do rapaz. Mas engolir aquele sapo seria o fim. Resultado: virei o sábado me relacionando com vassoura, rodo, pano de chão, saponáceo, sabão e água sanitária e acordei no domingo como se tivesse sido atropelado pelo metrô de Salvador. Que, aliás, estava prometido para 2003 e até hoje não foi inaugurado.